As relíquias de Guerrinha
Numa das inúmeras vezes em que entrevistei Guerrinha, estive em sua casa e conheci as riquezas que guarda num cantinho especial, idealizado pela esposa, Renata. Camisas, medalhas, troféus, souvenirs, fotografias, estatísticas da vitoriosa carreira em pastas e mais pastas. Abaixo, os itens que se referem à conquista do Pan:A preparação
Guerrinha lembra que o período de treinamentos foi longo. “Essa equipe começou a ser formada em 1985. Todo ano, a gente sempre se reunia dois meses antes. Em 1987, treinamos um mês e meio, veio o Sul-Americano, depois treinamos mais três semanas, quando chegaram o Oscar e o Marcel, vindo da Europa. Foi uma preparação diferenciada, pois ficamos um mês em Houston e de lá fomos direto para os Jogos”, descreve. Falar em medalha de ouro contra os ianques seria muita ambição, mas os brasileiros tinham qualidade para subir os degraus que os levaram à conquista história. “O objetivo dessa geração sempre foi fazer o seu melhor. Tinha um potencial incrível e dois jogadores diferenciados ofensivamente. Já sabíamos do nosso potencial, porque em 1986, no Mundial da Espanha, ficamos entre os quatro. Mas não pensávamos na possibilidade do ouro, porque os Estados Unidos, até então, eram imbatíveis em casa. Mas pensávamos em sermos os melhores possíveis sempre. Como dizia nosso amigo Ary Vidal: ‘Cadeira de barbeiro, um por vez’, sem ficar pensando muito na frente”, isto é, jogo a jogo. Com 28 anos na ocasião, Jorge Guerra era ídolo em Franca, tradicional cidade do basquete brasileiro, onde nasceu, e tinha média de pontuação em dois dígitos. Passou de craque no clube a coadjuvante na seleção sem problemas. “O Ary era um técnico que passava confiança para o grupo, para os jogadores individualmente. Sabia administrar oito líderes, que eram cestinhas em suas equipes e que, ali, jogavam em função do país, abrindo mão de pontuação, mas sabendo que poderiam ter um resultado para o basquete brasileiro, representando muitas pessoas”, destaca o hoje treinador do Mogi das Cruzes, atual campeão da Liga Sul-Americana.Mais imagens!
Time bem moldado
Por anos, após aquela vitória heroica, muitos críticos creditaram àquele time uma suposta “herança maldita” no estilo de jogo brasileiro, baseado em chutes de longe. Estilo hoje vigente no badalado Golden State Warriors, na NBA, e que funcionou também com o fantástico time do Bauru Basket (treinado por Guerrinha) que conquistou a Liga das Américas, em 2015. “Alguns especialistas acham que o basquete tem que ser jogado só de um jeito. E, na realidade, isso não é verdade. Para quem faz basquete há quarenta anos ou mais, a gente sabe que há várias formas de se chegar ao resultado. E nenhuma delas é o certo”, pondera o agora treinador. Para Guerrinha, o elenco determina o jeito de jogar. “Depende do material humano. Se você tiver um Oscar, um Marcel, tem que acreditar, passar confiança. Quando tem o jogo interno, tem que fazer interno… Claro que há um conceito, uma filosofia, mas tudo depende do material humano e das circunstâncias. O Ary tinha um material humano muito bom, um potencial incrível e ele potencializou esse talento e essa tendência do time de atacar muito bem”, explica. O camisa 10 daquela seleção enumera os feitos: aproveitamento acima de 90% nos lances-livres, mais de 20 assistências e mais de 30 tentativas de três por partida. “Abriu o jogo numa época em que se fazia só jogo interno. Era o time que fazia muito contra-ataque, que mais recuperava a bola e mais pegava rebotes. O maior volume de jogo gera melhores números”, decreta o campeão pan-americano.LEIA TAMBÉM: Aprenda os principais fundamentos do basquete
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