Número de pessoas obesas tende a crescer com a pandemia

Experiência em pandemias anteriores nos mostra que obesidade, além de ser um fator agravante, aumenta muito durante o período

Número de pessoas obesas tende a crescer com a pandemia
Foto: Getty Images

A dieta do ser humano mudou muito nos últimos anos. Alimentos com mais gordura, açúcar refinado, sal, aditivos químicos, conservantes e principalmente calorias, estão prontamente disponíveis e geralmente são mais baratos e menos trabalhosos que as alternativas mais saudáveis. E, além disso, os transtornos causados por uma pandemia aumentam as buscas por esse tipo de alimento. No entanto, aproveitamos esse 4 de março, Dia Mundial da Obesidade, para te alertar sobre essa dieta.

Nos países industrializados, cerca de 50% da população está com sobrepeso ou obesidade, com prevalência aumentando anualmente. Nos EUA, o último relatório NHANES/2018, indicou que cerca de 39,8% dos adultos americanos com 20 anos ou mais têm obesidade, sendo 7,6% grave.

Globalmente, são mais de 1,9 bilhão de adultos acima do peso e 650 milhões são obesos, com consequências adversas graves como diabetes (DM), hipertensão arterial (HAS), doenças cardíacas entre outras. No momento, este o impacto está se refletindo também em pacientes contaminados com Covid-19.

A epidemia do novo coronavírus é causada por uma cepa do vírus tipo influenza (SARS-CoV-2). Desde a pandemia da gripe “espanhola” de 1918, sabe-se que a desnutrição, o sobre peso e obesidade estão ligadas a um pior prognóstico da infecção viral.

As gripes asiáticas de 1957-1960 e as de Hong Kong de 1968 confirmaram que a obesidade e o diabetes levavam a uma mortalidade mais alta e a uma duração mais prolongada da doença, mesmo que os indivíduos estivessem sem outras condições crônicas que aumentassem o risco. Durante a pandemia do vírus influenza a H1N1 em 2009, a obesidade também foi associada ao aumento da gravidade da doença, e a um fator de risco aumentado para hospitalização e morte.

Entre abril de 2009 e janeiro de 2010, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças estimaram que entre 41 e 84 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus da influenza H1N1, e que entre 180 e 370 mil pacientes infectados foram hospitalizados, com 8 a 17 mil mortes. Vários relatos de todo o mundo identificaram obesidade e obesidade grave como fatores de risco para hospitalização e ventilação mecânica.

O impacto desproporcional da gripe H1N1 e agora Covid‐19 em pacientes com obesidade não é surpreendente. Segundo a nutricionista Adriana Stavro, a obesidade está associada à diminuição do volume de reserva expiratório, capacidade funcional e complacência do sistema respiratório. Em pacientes com gordura abdominal aumentada, a função pulmonar é ainda mais comprometida.

Para ela, a experiência com a gripe H1N1 deve servir como cautela no cuidado com estes pacientes, especialmente obesos graves. A prevalência em 2017 aumentou em relação 2010. Essas observações sugerem que a proporção de indivíduos nestas condições, e infecções por Covid-19 aumentará em comparação com a H1N1, e a doença provavelmente terá um curso mais grave nesses pacientes. Essas observações enfatizam a necessidade de maior vigilância, prioridade na detecção do vírus e terapia agressiva para os obesos contaminados por COVID-19.

Adriana Stavro explica que outro agravante para obesos e obesos-diabéticos é em relação a imunidade. Estes apresentam alteração em diferentes etapas da resposta imune inata e adaptativa, caracterizada por um estado de inflamação crônica e de baixo grau. Além disso os obesos apresentam concentrações cronicamente mais altas de leptina (uma adipocina pró-inflamatória) e mais baixa de adiponectina (uma adipocina anti-inflamatória).

Esse ambiente hormonal desfavorável também leva a uma desregulação da resposta imune e pode contribuir para complicações relacionadas à obesidade. Estes pacientes também têm maior concentração de várias citocinas pró-inflamatórias como TNF-alpha (fator de necrose tumoral Alfa), MCP-I (macrophage chemoattractant protein I) e IL-6 (Interleucina 6), produzidas principalmente pelo tecido adiposo visceral e subcutâneo, levando a um defeito na imunidade inata. Além disso, o acréscimo de citocinas inflamatórias associadas ao excesso de peso pode contribuir para o aumento da morbidade associada à obesidade nas infecções por Covid-19. Uma resposta pró-inflamatória desregulada também contribui para as graves lesões pulmonares.

Atividade física contra a obesidade

Outra questão importante entre os obesos é o sedentarismo. A inatividade física prejudica a resposta imune contra agentes microbianos em várias etapas da resposta imune, incluindo a ativação de macrófagos e a inibição de citocinas pró-inflamatórias.

A atividade física regular e a alimentação equilibrada e balanceada estão associadas positivamente a resultados favoráveis ​​na saúde metabólica (diabetes, obesidade entre outras) e imunológica (níveis de ativação imune). Intervenções com exercícios físicos e mudanças de hábitos alimentares demonstraram ser benéfico para reduzir o risco de complicações, modulando a inflamação e aumentando a imunidade.

O tratamento é complexo e multiprofissional, pois os indivíduos obesos não enfrentam apenas um risco aumentado de complicações de saúde graves, mas também uma forma generalizada de estigma social.

“Como vimos, são muitos os problemas causados pela obesidade e são muitos os fatores que podem causá-la. Por isso um emagrecimento saudável e sustentável é difícil e vai muito além de dietas milagrosas. O fato é que o que comemos é um dos principais determinantes de nossa saúde, expectativa e qualidade de vida, que quando bem administrada é uma ferramenta poderosa na prevenção e na melhora dos sintomas de muitas doenças”, encerra a nutricionista.

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